Oct

02

Limpezas de Outono…

by Cláudia Gonçalves

Hoje acordei eram sete da matina….Domingo, chegada a casa um pouco antes das quatro da manhã não há nada melhor que ser despertada por um horrivel som de um míudo sem talento a tocar piano as sete da manhã! OK, mas não vou deixar que isto me estrague o fantástico dia de Verão que está lá fora, pensei. Decidi ir correr… Depressa me apercebo que está demasiado calor, apesar de só serem sete da manhã!!

OK vamos organisar ideias, decidi ir tomar um café… Portanto que fazer nesta manhã de domingo??? TV não é uma opção porque enfim…é o Reino Unido……. Decidi fazer um de-cluterring…Enchi-me de coragem, passou-me assim umas coisas más pelo corpo e fui dar uma volta aos quilos de papelada e…coisas…chamemos-lhe coisas à falta de melhor….na minha secretária…OK, mas eu não tenho secretária no quarto ahaha POIS! Se calhar exactamente por isso!!

Espalhei tudo pela cama e comecei a fazer montinhos…O montinho do lixo, que, como devem calcular, foi o maior… O montinho dos contratos, das coisas electrónicas, dos relatórios médicos, das coisas das finanças daqui, dos postais que comprei e que nunca enviei, dos postais que recebi de amigos viajantes, das cartas, dos bilhetes de avião, dos postais de aniversário, da organização da viagem a Miami, das cartas por abrir….E este último era bem grande… Disposta a ser super mega eficiente e a ficar so com o absolutamente necessário, lá fui revivendo memórias, 3 anos e meio de memórias em Londres…

Cheguei a variadíssimas conclusões:

a) tal e qual como a minha mãe detesto correspondência! Eu sei, eu sei, sou eu a descartar-me da responsabilidade e tentar arranjar uma desculpa genética para tamanho defeito, mas eu acho que isto não é defeito, é mesmo alergia ou desordem genética…De momento, tudo o que puder evitar receber no correio, evito, estratos bancários, contas, etc…tudo digital, mas pela quantidade de cartas por abrir vejo que não é suficiente…

b) descobri que há momentos em que se deve explorar o passado, ler os postais que outrora amigos me enviaram das suas viagens, reler postais de aniversário, ler um poema do Alexandre O’Neill que o meu melhor amigo me enviou por um dos meus aniversários, provavelmente com muito atraso…ler cartas…ver fotos, fotos de casamento, de viagens, de momentos… Estes momentos não devem de ser de todo lamechas ou saudosos, nem sempre se está em condições sentimentais para se fazer este exercício. Percorrer o meu passado entre papéis, foi uma experiencia fantástica, recordei momentos muito felizes de Londres e também alguns menos bons, mas sem saudades, sem sentimento de perda, apenas um contentamento calmo e discreto da formalização de um caminho que eu tracei e que muitas vezes deixei à sorte a missão de traçar…. E sem sentimentos de lamechas, quando decido deitar fora algum dos milhares de postais porque são de pessoas que já não me dizem nada, que por diversas razões, boas e más, já não fazem parte da minha vida, concluo que não consigo. Afinal, eu tenho uma memória muito selectiva e consigo programar a minha mente para facilmente fazer o reset de muita coisa mas não quero. Boas ou más essas pessoas, esses gestos, esses momentos partilhados, fizeram parte de mim, durante muito ou pouco tempo, e faz sentido guardá-los nem que seja dentro de uma caixa de sapatos, que um dia mais tarde há-de ir parar a um baú num sotão, onde irei buscar quando já for muito velhinha para mostrar aos meus netinhos e

mostrar como foi esta parte da minha vida, que foi morar em Londres…E não há nada para lhes esconder…

c) há pessoas que por mais tempo que passe, por mais quilómetros e diferença horária que nos separa, mesmo que haja um passamento físico (gostaram do eufemismo?) nunca deixarão de fazer parte da minha vida. Apercebi-me isto ao ver um saco de papel, cartão castanho da primark, rasgado que foi um dos postais de aniversário de uma grande amiga para mim… Em português deixou palavras de amizade e carinho e escreveu a letra dos “That’s what friends are for”… como parte de uma prenda de aniversário…As circunstâncias levaram a que ela mal pudesse ter orçamento para o postal quanto mais para uma prenda, mas a prenda veio e o postal veio na forma que foi possível…E adoro-a por isso! Adoro-a pela forma como ela gosta de mim, como ela me conhece, como aceita as nossas diferenças e adoro-a por ela ser a pessoa que é!

d) descobri que lá por ter recordações do passado, não significa que se esteja colado a ele. Muito pelo contrário. Porque olho em frente, para o futuro, para os novos desafios, e com a idade eles tornam-se mais dificeis e complicados, preciso dos postais, das fotos para de vez em quando recordá-los…Recordar o passado para poder viver o presente de forma, espero eu, mais sábia e mais feliz…

e)Descobri 3400 carregadores de telemoveis de tres paises diferentes, incluindo de um blackberry que nunca tive… Há mistérios que não devem ser revelados…lol…

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