Aug

11

Cara Josefa e caro João,

by Cláudia Gonçalves

Escrevo-vos estas palavras para vos prestar homenagem e ao mesmo tempo exorcizar um medo meu.

O que vos leva a colocar a vossa vida em risco a troco de nenhum dinheiro poucos conseguem compreender. Eu compreendo. A coragem de aventurar as próprias vidas por uma sociedade mal agradecida e pouco compreensiva, o desafio de enfrentar inesperados obstáculos, a adrenalina de contornar qualquer dificuldade a qualquer altura faz de vós melhores seres humanos. Mas no fim de contas, a vossa recompensa é o alívio nos olhos das pessoas desesperadas que estão prestes a perder vidas inteiras devoradas pelas chamas, o obrigado da mãe a quem acabaram de salvar o filho, ou o sorriso da menina a quem acabaram de tratar da picada da abelha.

A vossa família que vos viu partir de forma cruel e inesperada não compreenderá nunca as vossas opções, poderão ter respeitado, mas nunca compreendido, e agora

são eles que ficam em casa a sofrer no desespero de vos terem perdido.

Eu não gosto que o meu irmão seja bombeiro, nenhum de nós gosta. Duvido que alguma vez iremos gostar. Eu não gosto que o meu irmão seja bombeiro há oito anos. A angústia que se passa durante a época de incêndios é o que mais nos perturba, e ofusca o desespero de pensar que muito mais provável é os bombeiros sofrerem graves acidentes de viação em corridas tresloucadas contra o tempo e contra o azar. O risco está lá, todo o ano. A toda a hora…

Os bombeiros são seres humanos comuns que apenas são mais loucos de terem a coragem de colocarem a sua própria vida em risco em prol da comunidade. Já vi o meu irmão como egoísta ao não considerar as angústias e os medos da minha mãe, mas depressa me arrependo de concretizar este pensamento, porque eu sei que é mentira.

Ficar em casa a pensar porque raio não dá ele notícias, faz três dias que foi para o incêndio e não diz nada. O telemóvel desligado, será que está hidratado, será que a população está a dar-lhes de comer? Nunca nos passa pela boca aquilo que nos passa verdadeiramente pela alma: será que está vivo?

Eram seis e meia da manhã de uma segunda feira, e acordei no meu quarto, no terceiro andar da minha casa com um enorme cheiro a queimado. Desci as escadas até ao rés do chão e percebi porquê. O meu irmão tinha chegado de um incêndio de mato. Preto. Preto da cabeça aos pés. Preto. O cheiro a queimado era intenso e intoxicante. A roupa ficou de molho três dias e foi lavada na máquina três vezes. Mais tarde soube a razão de tamanha imundice. Cercados pelas chamas devido a um erro técnico pouco puderam fazer para se conseguir salvar. Molharam o carro com a água que restava, molharam o chão, colocaram-se lá dentro, e as chamas passou-lhes por cima. Eram seis pessoas dentro daquele carro e a água sempre a correr.

Alguém tomou a decisão errada de os colocar naquela posição e colocou-os em risco. Eles tiveram a sorte de verificarem isso a tempo mas sem oportunidade para fugirem pouparam a água e conseguiram salvar-se. Maldita pessoa que pouco percebe daquilo. Mas destas acontecem muitas, todos os anos. Felizmente, o que vos aconteceu não acontece muito.

Eu não vos compreendo, mas respeito-vos muito. A vocês que têm nome e rosto nos jornais de todo o país e cujas famílias sofrem agora e para todo o sempre pela vossa partida inesperada. E respeito todos os outros, sem nome e que foram abençoados pela sorte de voltarem a colocar a chave à porta de casa.

Eu não quero que nenhum dos meus filhos ou familiares seja bombeiro. Já me basta o meu irmão… Mas respeito muito. Apenas não é nada fácil ser família de um herói.

Minha cara Josefa e meu caro João, descansem em paz.

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