Mar

21

Alguém imagina isto…

by Cláudia Gonçalves

Hoje passei uma experiência maravilhosa…Outra nestes últimos dias…Estas mini-férias em Portugal têm sido extraordinárias. Não se pode dizer que tivesse tido dois minutos sequer de aborrecimento.

Hoje recuperei forças junto ao Tejo, sentadinha a apanhar o sol que nem lagartixa a fazer tempo para ir ter com uns amigos…A reflectir um pouco os últimos tempos, nas oportunidades que se criaram ultimamente, feliz por ter podido surpreender a minha mãe no dia do seu aniversário, fazer praia, estar com os amigos, passear por Lisboa…Receber a notícia que umas das minhas melhores amigas se vai casar com um dos gajos mais porreiros do mundo que por acaso até é um amigo muito querido e que afinal a madrinha até sou eu…

Tratei de mim, cortei o cabelo, toda a gente cheia de elogios, que a vida me corre bem, tive a oportunidade de ver o país todo de Porto a Lisboa no cockpit de um AirBus e inclusive tive a alucinante oportunidade de aterrar no aeroporto de Lisboa.

Fiz aquilo que as gajas mais gostam de fazer, compras (mas só o estrictamente necessário). Estas férias têm sido memoráveis…Nunca mais as vou esquecer…Pela experiência do avião e pelo facto de ter chegado do hospital de São José com a minha mãe porque acabou de perder parte de um dedo ao entalar-se na porta do carro.

E pronto, numa das melhores semanas do ano, a minha mãe, que está a ter uma recuperação fantástica desde a morte do meu pai, que até já tem bilhete para me ir passar a Páscoa comigo a Londres daqui a três semanas acaba de perder parte de um dedo pela situação mais rídicula e tola que pode acontecer a qualquer um…Alguém imagina isto??? Será karma, pergunto-me???

Alguém me explica porque raio tenho eu que passar por isto???? E ter que voltar para trás e andar a procura do dedo??? São coisas que acontecem…Pois são…Mas porquê ficar sem parte do dedo???? Podia ter feito um corte profundo e grave, qualquer coisas de tão sério mas que não deixasse uma marca tão evidente para o resto da vida…Não há crise em príncipio, está tudo bem, foi menos de metade do dedo mindinho da mão esquerda, ela até é dextra, o que incomoda são as dores e as chatices da baixa e essas coisas… Mas ela já tinha tanta coisa com que se preocupar…Coitadinha ela não merecia mais este pincel…Será que não nos podem dar umas tréguas…

Espero bem que não venha a ter problemas no trabalho por causa disto. Pelo menos 15 dias sem trabalhar e depois está sempre condicionada porque tem que ir ao hospital e afins…

Por isso vos digo, num minuto estamos bem, no segundo a seguir estamos mal…Ainda estou para tentar descobrir como vou digerir mais este revés. Ainda por cima, tinha que acontecer aquilo que eu não suporto ver, enfrentar: fracturas expostas. Quando fiz o TAT apanhei gente com os intestinos de fora, cabeças lascadas com o crânio à mostra, mas a mais simples fractura exposta eu não fui capaz de dar assistência. Sabem o que fiz quando vi que a minha mãe não tinha parte de um dedo… Segui as regras todas excepto ter chamado os bombeiros, porque em vez de levar 20 minutos a chegar ao hospital levou 5.

Fiz tudo consoante o que me ensinarem, tentei estancar a ferida, tentei procurar o dedo, mas quando a tua própria mãe grita de dores supostamente monstruosas no meio da rua a dizer vamos embora, vamos embora, tu não insistes e ficas à procura do dedo…

Agi consoante as regras, não passei dos 140km/h, avisei os outros condutores da marcha de emergência, sempre calma, ainda a transportei do Amadora para São José quando se aperceberam que não haviam cirurgiões e que não se podia fazer nada contra as dores, portanto entre eu leva-la no meu carro e esperar por uma ambulância, qualquer pessoa sabe a resposta…

E depois de a ter entregue ao cirurgião do S. José, do meu irmão ao telefone me dizer que tinha encontrado o resto do dedo e me gritar aos ouvidos para falar com o médico para saber se era possivel a reconstituição, o que acontece???

Quebro, choro, entrego-me à descompressão de tentar esquecer as horriveis imagens do que vi e não consigo. O caso não é grave, dizem os estudantes de Medicina depois da minha mãe lhes ter contado a história toda: a festa de anos surpresa, o regresso a Londres, o meu pânico por fracturas expostas…O polícia que ouve a história desde o príncipio sabe que a história é outra, sabe que não foi só parte do dedo que se perdeu. Sabe que não são só as dores e as chatices das próximas semanas que deveriam de ser de entusiasmo pela minha mãe ir andar de avião a primeira vez…Ele sabe que há mais…E por isso olha para mim e chora, incapaz de comunicar, e chora…

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